O economista João Vitor Dias Gonçalves, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apresentou o panorama da economia brasileira durante o III Congresso Fenacon, nesta quinta-feira (6), em São Paulo. A palestra passou por três eixos principais: a conjuntura econômica atual, os impactos da proposta de reforma da jornada 6×1 sobre produtividade e nível de emprego, e um retrato dos setores representados pelo Sistema Fenacon.

Uma economia que envelhece e um mercado de trabalho apertado
Gonçalves começou destacando que a economia brasileira cresceu de forma consistente nos últimos três anos, mas chamou atenção para um fator estrutural que preocupa os economistas: o envelhecimento da população.
Segundo ele, há cada vez menos gente entrando no mercado de trabalho e mais pessoas em idade avançada, o que reduz a quantidade de mão de obra disponível e gera pressão sobre os salários. Como sinal desse “aperto”, ele citou o comportamento do pedido de demissão voluntária, que tende a subir em períodos mais tranquilos na economia. Isso acontece porque os trabalhadores se sentem mais confiantes para deixar o emprego atual em busca de propostas melhores no mercado.
No mesmo contexto, o economista apresentou o conceito de “taxa natural de desemprego” que diz respeito ao patamar mínimo que a economia consegue sustentar sem que o aperto no mercado de trabalho comece a pressionar os preços. Segundo suas estimativas, essa taxa natural estaria entre 7% e 7,5% no Brasil, e o país está atualmente abaixo dela, com o desemprego nas mínimas da série histórica.
Gonçalves também rebateu a hipótese de que essa taxa baixa seria apenas um reflexo das pessoas desistindo da procura de emprego. Segundo ele, a taxa de participação da força de trabalho caiu pouco nos últimos cinco anos, quando cerca de 700 mil pessoas deixaram de buscar uma vaga. Mesmo se essas pessoas estivessem procurando e não tivessem conseguido, o desemprego estaria em torno de 5,7%. Ainda assim, um patamar historicamente baixo.
Para o economista, outros fatores estruturais ajudam a explicar esse cenário, entre eles a reforma trabalhista do governo Temer (cujos efeitos podem ter sido represados pela pandemia) e a informalização crescente, que podem ter reduzido a própria taxa natural de desemprego do país, hoje estimada por ele em algo próximo a 5,6%.
Brasil trabalha menos que emergentes, mas mais que desenvolvidos
Ao tratar da proposta de redução da jornada de trabalho, o economista da CNC apresentou uma comparação internacional de horas trabalhadas. Segundo ele, países desenvolvidos trabalham significativamente menos horas porque são mais produtivos, o que permite jornadas mais curtas sem perda de renda. Já entre os países emergentes, o Brasil trabalha menos que a média, principalmente por conta dos países asiáticos, como Coreia do Sul, China e Vietnã, que mantêm jornadas bem mais longas. Ainda assim, na comparação direta com os países desenvolvidos, o Brasil trabalha mais horas por semana.
O economista lembrou que a Constituição de 1988 já havia promovido uma redução expressiva da jornada máxima semanal permitida no país, e que o debate atual caminha para uma nova redução.
Redução da escala 6×1 surge em momento inoportuno, segundo o economista
Para Gonçalves, o timing da proposta é um problema à parte. Como o mercado de trabalho já está apertado com desemprego abaixo da taxa natural e sinais de inflação de salários, reduzir a jornada aumentaria de forma abrupta a demanda por mão de obra justamente num momento em que ela já está escassa, o que tende a intensificar a pressão sobre os salários e, por consequência, sobre os preços.
O economista também apontou uma questão de fundo: a estagnação da produtividade brasileira nas últimas décadas. Com exceção da agropecuária, setor em que o Brasil vem ganhando competitividade, os demais setores da economia brasileira praticamente não avançaram em produtividade desde os anos 1990. Na avaliação de Gonçalves, a renda cresceu e o desemprego caiu nas últimas décadas, mas sem o correspondente ganho de produtividade, o que deixa o país para trás em relação a economias mais abertas ao comércio internacional, que importam mais bens de capital e exportam produtos de maior valor agregado.
Gonçalves foi direto ao tratar do argumento mais usado a favor da reforma, de que a redução da carga horária geraria mais contratações. Segundo ele, a evidência internacional e nacional não é conclusiva nesse sentido, pois em nenhum dos dois contextos há garantia de que jornadas menores aumentem o nível de emprego.
“Não é tão fácil conseguir mão de obra. A inflação de salários já dá sinais há bastante tempo. Então, de uma hora para outra, a gente vai botar uma demanda a mais por mão de obra no mercado em um momento que já está apertado, já está asfixiando a quantidade de mão de obra”, defendeu o economista.
Ao aumentar o custo da mão de obra, a redução de jornada também pode levar empresas a reduzir o quadro de funcionários e aumentar suas funções em vez de contratar mais gente.
Atividades de contabilidade é a que mais cresce e emprega

Na parte final da apresentação, Gonçalves trouxe um retrato dos estabelecimentos ligados aos setores representados pela Fenacon. Segundo ele, o número desses estabelecimentos deu um salto expressivo em 2022 devido a um movimento que, na leitura do economista, não teve relação com aquecimento da economia, mas foi puxado por uma mudança regulatória no eSocial.
Mesmo descontado esse efeito pontual, os estabelecimentos ligados à Fenacon cresceram em ritmo bem mais acelerado do que a média da economia brasileira no período. A pesquisa revelou que as atividades de consultoria em gestão empresarial (207.886 em 2025) e de contabilidade (318.404 em 2025) são as que mais cresceram e mais empregaram dentro do universo representado pela Fenacon.
Pequenos negócios são os mais vulneráveis à reforma
Um dos pontos centrais desse bloco foi o peso dos pequenos negócios dentro dos setores representados. Segundo os dados apresentados, micro e pequenas empresas respondem por cerca de 97% do setor de serviços.
Para Gonçalves, esse dado conecta diretamente com o debate sobre a reforma da escala 6×1 tratado na parte anterior da palestra. Isso porque o aumento de custo trazido por uma eventual redução de jornada tende a pesar proporcionalmente mais sobre esses pequenos estabelecimentos do que sobre as grandes empresas do setor.
Como os pequenos negócios respondem pela contratação da maior parte da força de trabalho do país, o economista apontou essa redução como um ponto de atenção especial para a categoria. O pequeno empresário é quem mais sentiria o impacto financeiro da mudança.
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