A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apresentou nesta terça-feira (28), um estudo inédito sobre o impacto das apostas online no endividamento das famílias brasileiras, em Brasília.
O estudo é baseado nas Pesquisas de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). O levantamento revela que o crescimento acelerado dos gastos com bets tem contribuído para o agravamento da inadimplência no país, especialmente entre as populações mais vulneráveis.

Endividamento recorde e explosão dos gastos com bets
Segundo Bentes, a edição de março da PEIC registra que 80,4% das famílias brasileiras carregam algum tipo de dívida, o maior patamar desde o início da pesquisa, em 2010. Em dezembro de 2022, período adotado como marco anterior à análise, esse índice era de 78%.
Embora o endividamento por si só não seja prejudicial, os indicadores mais severos, como inadimplência crescente e aumento do tempo médio de atraso, merecem atenção redobrada.
“A dívida em si não é ruim, desde que seja sustentável. O problema é quando o excesso de gastos começa a comprometer a capacidade de pagamento das famílias“, explica Bentes.
A pesquisa também mostra que os gastos dos brasileiros com apostas online cresceram cerca de 500%, saindo de aproximadamente R$ 4 bilhões mensais em dezembro de 2022 para R$ 30 bilhões em março de 2025. Bentes ressaltou que o próprio Banco Central reconhece que esses números podem estar subestimados, o que torna o cenário ainda mais preocupante.
Metodologia robusta isola o efeito das bets
A CNC adotou uma metodologia de Diferenças em Diferenças (DiD) para separar o impacto das bets de outros fatores que também pressionam o orçamento das famílias, como taxa de desemprego, concessão de crédito e inflação. O objetivo foi garantir que o estudo não apontasse as apostas online como vilãs únicas de um problema multicausal — postura que a própria entidade define como responsável e tecnicamente rigorosa.
Os resultados indicam que, mesmo controlando as variáveis econômicas tradicionais, o aumento dos gastos com bets está estatisticamente associado à inadimplência severa e ao prolongamento das dívidas. Para cada aumento de 10% nos gastos com apostas online, a proporção de famílias sem condição de pagar suas dívidas sobe 0,12 ponto percentual — um coeficiente com altíssimo grau de confiança estatística (99%). O tempo médio de atraso das dívidas também avança 0,45 dia a cada 10% de acréscimo nos gastos.
Perfil dos mais afetados: renda baixa, homens acima de 35 anos e maior escolaridade
O estudo detalha o impacto por diferentes perfis populacionais e revela surpresas.
Renda
Famílias com renda de até cinco salários mínimos apresentam aumento de endividamento atribuível às bets, enquanto nas famílias com renda acima de dez salários mínimos o endividamento até recua. Ainda assim, mesmo as famílias mais ricas apresentam piora na inadimplência, indicando que o fenômeno atravessa diferentes estratos econômicos.
Gênero
Homens são significativamente mais afetados no endividamento e na inadimplência severa, o que é consistente com o perfil majoritariamente masculino dos apostadores identificado pelo Banco Central. Mulheres, no entanto, apresentam maior tempo médio de atraso em suas dívidas.
Faixa etária
Contrariando a percepção inicial, são as pessoas acima de 35 anos, e não os jovens, que apresentam maior impacto no endividamento. Os pesquisadores levantam a hipótese de que o excesso de gastos dos jovens da família pode estar afetando o orçamento dos adultos responsáveis pelo lar.
Escolaridade
Pessoas com ensino médio completo ou mais aparecem mais expostas ao problema. Na opinião do especialista, o cenário possivelmente se explica por terem maior acesso a plataformas digitais e a produtos de crédito.
Impacto no comércio equivalente a dois natais
O estudo estima que o avanço da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, gerou uma retração média de 2,5% nas vendas do comércio ao longo de 2024 e 2025. Somadas, as perdas acumuladas nesses dois anos chegam próximas a R$ 144 bilhões, que é equivalente ao faturamento médio de dois períodos natalinos.
“As Bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das família, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo”, diz o documento.
Para a Fenacon, os dados enfatizam a importância da educação financeira e o monitoramento de risco de crédito junto às micro e pequenas empresas e seus colaboradores. O superendividamento das famílias impacta diretamente a saúde financeira dos negócios e esse ciclo precisa ser mitigado.
Recomendações da CNC e agenda regulatória
A CNC deixa claro que não é contrária às apostas online como atividade econômica formalizada. A entidade defende, no entanto, avanços em três frentes: regulação da publicidade, com restrições similares às adotadas para tabaco e bebidas alcoólicas; formalização e rastreabilidade das transações, que ainda apresentam lacunas nos dados disponíveis; e inclusão de educação financeira no currículo escolar, dada a complexidade do sistema de crédito brasileiro, com a maior taxa real de juros do mundo.
O estudo completo, com todos os coeficientes e cortes da pesquisa, está disponível no Observatório do Comércio da CNC. A Fenacon acompanhará os novos encontros que serão realizados com periodicidade para atualização dos dados e análise de outros fenômenos que afetam o setor de comércio e serviços nacional.