Postado em 30/09/2016 - Fonte: DCI - SP - Por: Paula Cristina

Recuperação judicial e falência em construtoras avançam 25%

Sinal Vermelho. Recessão que atingiu todos os tipos de canteiros de obras, coloca em xeque a sobrevivência das empresas que, desde o ano passado, lutam mês a mês para fechar as contas

São Paulo - A retomada muito lenta do PIB da construção tem sido um balde de água fria para empreiteiros. Contando que este ano a economia estaria melhor, muitos trabalharam no limite das finanças ano passado e agora, sem a volta da economia, a perspectiva é que as falências e recuperações judiciais subam mais de 25%.

Ano passado, o número de construtoras que pediram recuperação judicial subiu 30%, e para este ano a previsão é que mais de 1300 empresas de todos os portes façam o pedido. "Elas se endividaram demais com alto volume de investimento entre 2011 e 2013, depois, em 2014 e 2015, houve o movimento de busca por crédito com bancos para segurar as contas", explicou o coordenador do núcleo de finança empresarial da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Sérgio Camaradi.

Para o acadêmico, esse alto endividamento não seria um problema, se houvesse mais sinais de retomada do PIB da construção. "Com a Selic muito resiliente e sem perspectivas de diminuição de juros, as condições seguem deterioradas."

Este ano, a perspectiva é que o PIB da construção encolha 5%, em cima de uma retração de 7,3% vista ano passado. "O cenário é de incertezas. Entre as grandes empresas há o medo com envolvimento em investigações e falta de clareza sobre as obras públicas, entre as pequenas, há o enforcamento das contas e a possibilidade de falência", diz o presidente da MK Contabilidade, Marco Kinnof.

O executivo, que tem 75% de sua carteira voltada para construtores de todos os portes aponta que as dificuldades cresceram muito. "Ano passado entramos com pedido de falência de 13 construtores. Este ano, até agosto, já são 15. Estamos bastante preocupados, porque os que ainda não pediram [recuperação judicial ou falência] podem pedir se o mercado da construção não melhorar ano que vem", alerta.

As pedras no sapato

Além do crédito caro e escasso - que inibe tanto a contração de aporte das empresas quanto a perspectiva de venda ao consumidor final - as construtoras vivem o que especialistas chamam de 'a tempestade perfeita'. "O programa 'Minha Casa Minha Vida' está com repasses atrasados, tanto da União, quanto do município. As grandes obras estão paradas, o material de construção está caro, então não há nem pequenas obras para sustentar o mercado", diz Kinnof. Além disso, o acadêmico da UFMG ressalta os problemas com folha de pagamento, alta de impostos e aluguel de equipamentos, realizado em dólar.

Todas essas questões, concordam os especialistas, seriam menos decisivas na sobrevivência das empresas se houvesse algum estímulo externo. "Mas o novo governo já sinalizou que nada de imediato pode ser feito. Agora, esse mercado que já demitiu mais 1 milhão de pessoas, vai demorar para retomar os patamares de 2013 no nível de atividade. ", diz Kinnof.

O futuro é agora

Quando o assunto são as demissões geradas nos últimos meses pela indústria da construção, o presidente do Sindicato da Construção de São Paulo (SindusCon-SP), José Romeu Ferraz Neto, é enfático: "Embora os empresários do setor estejam menos pessimistas em relação ao futuro desempenho das construtoras, a persistência dos juros altos, o desemprego, o declínio da renda das famílias e as restrições à concessão de financiamentos determinam a atual escassez de novos investimentos no setor", afirma, lembrando que a manutenção do 'Minha Casa', a retomada das 1,6 mil obras públicas paralisadas e as mudanças no FGTS para compra de imóveis também são crucial para o futuro do setor.

O presidente da MK, no entanto, garante que, para muitos, o futuro pode não chegar. "As contas não fecharam este mês, e não fecharão mês que vem. Sem mais clareza sobre quando virá esse futuro de otimismo, tudo fica muito incerto."

Recuperação judicial

Dados do Instituto Nacional de Recuperação Empresarial revelam que 1.079 empresas do ramo entraram com pedido de recuperação judicial em 2015, 30% mais que as 846 de 2014. O maior crescimento (41%) foi na região Sudeste, onde 450 empresas entraram com pedido. Em segundo lugar, a região Sul com aumento de 22% nos pedidos; depois a Norte, com alta de 19%; Nordeste, com aumento de 18%; e Centro-Oeste, 16%.

Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (Cbic), José Carlos Martins, esse dado é alarmante, e reflete a falta de saída que as empresas do ramo vivem agora. "As da Região Sudeste são as mais impactadas, muito pela dependência da atividade industrial", afirmou ele, em um evento na capital paulista.

Para Camaradi, da UFMG, outro fator decisivo para o sudeste ter o maior número de pedidos foi o 'boom' imobiliário. "As empresas não contavam com essa quebra de ritmo de vendas e muitas estão amargando prejuízo só para conseguir se desfazer do estoque excedente", disse, lembrando que, em cada imóvel, a construtora lucra entre 3% e 5%, mas para conseguir vender, muitas apertaram as margens para menos de 1,5%, tornando o negócio pouco sustentável.

Mostrando que São Pulo segue no cerne da crise, a Viver Incorporadora e Construtora entrou este mês com pedido de recuperação judicial na capital paulista, em caráter de urgência. Em nota à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa credita aos fundamentos da economia e a falta de condições de cumprir suas obrigações como principal motivo para o pedido. "A Viver é a primeira construtora de capital aberto a pedir recuperação judicial, o que mostra que ninguém está à salvo", diz o especialista em falência e recuperação judicial do escritório Mendes, Favinni & Douglas Advogados, Reginaldo Favinni. Quem também estaria considerando entrar com o pedido até o final do ano é a PDG que, procurada pela reportagem do DCI, disse que não estava comentando o assunto.

 

 

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